quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A TRINCHEIRA DO EVANGELHO E A SUA INADEQUAÇÃO COM OS “ISMOS”

Por que ante alguns equívocos de certos súditos que fazem Missão Integral alguns teólogos e palpiteiros on line são rápidos em denunciar os perigos do comunismo na práxis cristã, mas são tão lentos em combater a demanda do consumismo proposto e doutrinado pelo liberalismo econômico? Vamos refletir sobre isso?

Se o deus do socialismo foi um ditador que obstinado pela ausência de classes ditou e matou, o deus do capitalismo chamado LUCRO, também não poderia ser um ditador (mais bem apresentável) que dita e mata de outras formas? Uma espécie de Mamom político-econômico?

Nossos medos podem ser um, mas nossas tentações podem ser outras... Por isso confesso que esse “capitalismo de hoje” é bem mais tentador pra mim do que o socialismo do senso comum evangélico.

Óbvio que tenho medo de um governo marxista cuja história nos mostra que foi capaz de transformar a vida num tormento em nome de uma sociedade sem classes, exercendo tirania sobre a política, economia, cultura e religião; eu tenho medo de um governo como o Cuba, Venezuela, você não? Porém, não deveria eu também ter medo da estupidez macro de um sistema que tem compromisso com mercado e não com gente? Deveríamos ter medo da nossa “tentação capitalista” de cada dia. Mas, por que não temos tanto? Sou tentado a trocar meu celular (ainda em bom estado) por um “Iphone da vez” porque as prateleiras do shopping me dizem que tô "atrasado" (isso serve para roupa, carro, etc.); sou tentado e induzido a consumir todo veneno alimentar exposto nas prateleiras dos supermercados que, em nome do MERCADO, conscientemente redirecionam a população para um futuro calabouço hospitalar. Fico a pensar ainda, não nos causa indignação às consequências do consumo exagerado que afeta diretamente a retirada de matérias primas da natureza com a poluição do meio ambiente, resultantes da tônica da produção capitalista?

Em suma, digo, a tentação do mercado é mais intensa, mesmo disfarçada, do que o medo de um governo socialista. As artimanhas do consumismo e suas obsessões na vida comum do cristão são muito mais presentes e trágicas, em nosso contexto, do que os malefícios do comunismo conjectural. Acho que é isso que quero dizer! Ambos “ismos” são apenas roupas inadequadas que vestimos sobre conceitos que tentam gerir uma realidade chamada PECADO.

Aqui no Nordeste tem um ditado popular que diz “pau que bate em Chico bate em Francisco”. É mais ou menos isso... Cristão que critica a direita precisa atentar para a nocividade da esquerda, e vice-versa. A via segura deve ser outra, o Evangelho que dá sentido e razão para o homem e a vida como um todo! Se você quer debater qual deles hoje apresenta-se menos terrível ao homem, o faça sem retirar o conceito de PECADO em seus aspectos mais gerais possíveis e sabendo que ambos projetos de “redenção” social são falíveis e idólatras.

Mas... Sistemas políticos têm a ver com questões triviais da vida? Será? John Stott em seu livro ‘O discípulo radical’ dedica um capítulo onde fala sobre o “estilo de vida” do cristão, outro que fala sobre “simplicidade” e outro sobre o “cuidado com a criação”. Poxa...vale a pena lê-lo sem LUPA de direita ou esquerda. Vale apena ler sobre os reformadores e avivalistas sem a LUPA de direita ou esquerda e perceber que lutar por justiça social e auxílio ao pobre não é novidade de “crente esquerdopata” (é só uma questão de simetria fé e obras como adverte Tiago):
Mas dirá alguém: Tu tens fé, e eu tenho obras; mostra-me a tua fé sem as obras, e eu te mostrareia minha fé pelas minhas obras” [Tiago 2.18]

“Contra todas as formas de perversão social, contra os simulacros de ordem, contra os que abusam do poder que receberam de Deus, poder político ou poder de riqueza, contra toda forma de opressão, devem insurgir-se os cristãos e a igreja; porque o próprio Deus é adversário deles”. [João Calvino]

A migração para as cidades criou uma nova classe de moradores urbanos pobres nos dias de Wesley. A Revolução Industrial caminhava a todo vapor, alimentada pelo carvão. Ao pregar para os carvoeiros de Kingswood, Wesley estava alcançando os que foram mais cruelmente vitimados pela industrialização. Porém, a reação dos carvoeiros foi fenomenal, e Wesley trabalhou sem parar para manter o bem estar espiritual e material deles. Entre outras coisas ele abriu clínicas gratuitas, estabeleceu uma espécie de cooperativa de crédito e abriu escolas e orfanatos. Seu ministério se estendeu para incluir os mineiros de chumbo, operários de fundição de indústria siderúrgica, estivadores, peões de fazendas, prisioneiros e mulheres que trabalhavam nas indústrias”.
[Registro do teólogo Howard A. Snyder (pesquisador de Estudos Wesley no Seminário Tyndale em Toronto, Ontário 2007-2012)  a respeito de John Wesley e o avivamento em sua época]

Alguns homens demonstram amor aos outros como se fosse apenas ao homem exterior; eles são liberais no tocante às suas posses terrenas e muitas vezes dão aos pobres, mas não sentem amor ou preocupação pela alma das pessoas. Outros fingem um grande amor pela alma das pessoas, mas não são compassivos com relação ao seu corpo. [Jonathan Edwards]
Por fim, o Evangelho não coaduna com os "ISMOS". Nenhum dos antagonismos acima deve (ou deveria) ser a nossa sina, defesa ou crença de restauração. O Evangelho não veste roupa de Teologia A ou B, Missão A ou B, Política A ou B, liberalismo ou conservadorismo. Parece difícil pensar e viver isso hoje, eu sei. Lamento.

Estamos entrincheirados na base segura da nossa fé, o Evangelho: a boa nova aos homens e a sinalização do reino de Deus neste mundo. Isso deve gerar três perguntas que, a meu ver dispensa a LUPA política que tantos querem usar:

- O que eu devo dizer as pessoas do mundo? 
- Como eu posso servir as pessoas do mundo? 
- Como eu devo cuidar do mundo das pessoas?

O Evangelho nos dá as respostas. Agora preste atenção. Ante essas respostas, o que aparentar ser pauta sociológica, política ou ecológica, tenha calma, não se assuste de cara! Lembre-se que o plano de Deus para o homem e sua Criação precede sistemas sociais e políticos. Se do Evangelho emana o sentido do pensar e agir, não julgue precipitadamente se tratar de algo da “direita ou esquerda”, por assim dizer. Considere a possibilidade de ser apenas uma COBELIGERÂNCIA, isto é, “apontar para o mesmo alvo e guerrear com motivações diferentes e em trincheiras diferentes”. O Evangelho é único, é o poder de Deus. Ele não cabe e nem precisa de “ISMOS”.

Atente para o simples princípio da Cobeligerância e liberte-se dessa alergia irritante de se julgar sempre precipitadamente a partir do binômio sócio-político. Ela, a cobeligerância, existe e pode até tentar nos confundir. Porém nunca se esqueça: o cristão verdadeiro não se alia a outros projetos, pois vive numa trincheira vitoriosa!

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Antognoni Misael.

domingo, 21 de agosto de 2016

Procurando Deus na Música Popular: a casinha branca e a criação restaurada

Casinha Branca (versão:Roberta Campos)

Eu tenho andado tão sozinho ultimamente
Que não vejo em minha frente
Nada que me dê prazer
Sinto cada vez mais longe a felicidade
Vendo em minha mocidade
Tanto sonho a perecer

Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde
Pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela
Para ver o sol nascer

Às vezes saio a caminhar pela cidade
À procura de amizades
Vou seguindo a multidão
Mas eu me retraio olhando em cada rosto
Cada um tem seu mistério
Seu sofrer,sua ilusão

Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde
Pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela
Para ver o sol nascer
Eu queria ter na vida simplesmente
Um lugar de mato verde
Pra plantar e pra colher
Ter uma casinha branca de varanda
Um quintal e uma janela
Para ver o sol nascer ...

Quando o autor de Eclesiastes (3.11) afirma que Deus colocou a eternidade no coração do homem significa dizer que a humanidade sente a infinda saudade do seu Criador e da perfeita vida que tinha no Éden.

O cancioneiro da Música Popular Brasileira nos trás pérolas a respeito do coração do homem. Em muitos casos, tais artistas misturam a beleza de suas melodias com uma poesia confessional e sincera. 

Aqui temos a canção de Gilson e Joran “Casinha Branca” (1979), acima na versão atual de Roberta Campos. Ela fala sobre um terno desejo que o homem tem por uma vida simples e feliz em substituição a esta realidade triste, ilusória e sem sentido.

Infelizmente a maioria dos artistas cristãos esqueceu de cantar sobre a vida e seus dramas e de apresentar respostas verdadeiras relacionadas às canções populares recheadas de, como diria Francis Shaeffer, validade (relação sincera entre o artista e sua arte).

Poderíamos responder a esta canção dizendo que seu anseio é legítimo pois um dia esta vida bela e singela já existiu.

A Bíblia nos diz que o homem um dia viveu em uma “casinha branca” no meio da criação de Deus, plantando, colhendo, correndo pelo campo, contemplando a noite enluarada e o céu estrelado. Ao nascer do dia, lá da varanda, ele recebeu os primeiros raios do sol, em seguida “tomou um café” com a sua amada e filhos e agradeceu ao seu Criador por mais um dia ante a visita de um beija-flor na janela que também agradecia.

Nesse lugar, eu diria que o amor sempre foi a regra, lá só havia amigos mais que irmãos e jamais existiu a solidão. Em cada olhar não se encontrou tristeza, sofrimento ou ilusão. Nesse lugar a satisfação foi plena por uma simples razão: as criaturas viviam a comunhão perfeita com o seu Criador.

Claro que este paraíso perdido é muito mais complexo e belo do que descrevi, mas ele era só o detalhe da felicidade. A completa felicidade se dava verdadeiramente pelo fato do Criador estar presente, e isso dispensa as outras descrições que não fiz aqui. Um dia este paraíso há de ser restaurado. Esta vida plena e feliz com um lugar de mato verde, plantas exuberantes, quintal, janela, varanda, sol, casinha branca há de novamente existir.

Como revelou o apóstolo João, palavras de Jesus a respeito do paraíso eterno: Eis que faço novas todas as coisas (Ap 21.5).


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Por Antognoni Misael.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Por que eu dispenso o dispensacionalismo?

Um dos assuntos, talvez, menos abordados por uma comunidade seja escatologia -  o estudo das últimas coisas. Contudo, apesar de muitos cristãos não terem um posicionamento convicto quanto a qual corrente escatológica crer, nota-se na maioria destes simplórios uma tendência a serem dispensacionalistas[1], mesmo sem saberem que são.Vamos aos Porquês.

1) Porque uma das maiores propagadoras da corrente escatológica dispensasionalista foi a Bíblia New Scofield, comentada pelo teólogo estadunidense Cyrus Ingerson Scofield. Na segunda metade do século passado esta Bíblia foi muito divulgada no meio protestante e nela continha todo arquétipo dispensacionalista, o qual difundiu a ideia da literalidade das passagens bíblicas-escatológicas e das várias dispensações que a humanidade passa, ou passaria. Para Scofield, as dispensações são “um período durante o qual o homem é testado com relação à sua obediência a alguma revelação específica da vontade de Deus”.

2) Porque o cinema reabasteceu essa crença no dispensacionalismo. Sim, isto devido a Left Behind, o famoso “Deixados Para Trás” o qual deixou muita gente “para trás” mesmo no quesito coerência bíblica (inclusive eu que já fui um dispensacionalista). Estes filmes, resultantes de uma série de livros que vendeu mais de 70 milhões de exemplares publicada em mais de 34 idiomas, narram os últimos dias na terra após o arrebatamento da igreja, conforme doutrina desenvolvida no século XIX pelo ministro anglicano John Nelson Darby.

A doutrina dispensacionalista é recente. Apenas na segunda metade do século XIX John Nelson Darby passou a difundir esta corrente. Isto é, os principais expoentes da teologia reformada, de Agostinho a Spurgeon, oscilaram entre “pré-milenistas”, “pós-milenistas”, e amilenistas, mas não dispensacionalistas!

Veremos aqui alguns pontos da visão dispensacionalista a fim de concluirmos que nada mais coerente do que deixar as dispensações bem para trás:

a) Os dispensacionalistas creem na literalidade das escrituras e rejeitam verdade básicas do Novo Testamento, como por exemplo, a chegada do Reino de Deus. Deste modo as profecias veterotestamentárias que se cumpriram em Cristo são rejeitadas. Veja o que diz Herman Hoyt, um dispensacionalista contemporâneo:
“Este princípio claramente declarado é o de tomar as Escrituras em seu sentido literal e normal, entendendo que isso se aplica a toda Bíblia. Isto significa que o conteúdo histórico da Bíblia deve ser tomado literalmente; a matéria doutrinária deve ser igualmente interpretada desta forma; a informação moral e espiritual também segue este padrão; e o material profético deve ser igualmente entendido desse modo”.
Outro defensor desta corrente, o Pr. Marcos Granconato (recém-conhecido dos internautas e famoso por sua forma dura, e às vezes pitorescas, de defender algumas vertentes da teologia) chegou a dizer em sua rede social que “(...) esse modelo, (...) está livre de montagens artificiais, construídas na base da tradição, da fidelidade confessional cega e da hermenêutica espiritualista”.

Bem, será se a tradição cristã, no que tange a teologia dos principais teólogos reformadores, tem montagens artificiais e fidelidade confessional cega? Vamos as problematizações abaixo.

* Por que Jesus espiritualizou o Reino de Deus? Vejamos como nós, que rejeitamos o dispensacionalismo, pensamos.

Apesar do termo “Reino de Deus” não ser encontrado no Antigo Testamento, o pensamento de que Deus é rei está presente especificamente em Salmos e nos profetas. Ele é visto como rei em Israel (Dt 33.5; Sl 84.3; 145.1) e em toda a terra (Sl 29.10; Sl 47.2; Sl 96.10; 97.1). Portanto, neste quesito os dispensacionalistas ainda aguardam a implantação de um reino literal de Jesus na terra! Isto é, para esta corrente o reino chegado, na pessoa de Jesus, ainda não é o reino prenunciado no Antigo Testamento.
“Se, porém, eu expulso os demônios, pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós” (Mt 12.28).
Vamos pensar um pouco mais... Por que será que para os dispensacionalistas o reino de Jesus não chegara ainda? Segundo eles, seria porque que Cristo ofereceu tal reino aos judeus de sua época, mas eles rejeitaram, e portanto, a igreja é um parênteses na história que precede o retorno do Filho a terra para finalmente reinar em Israel literalmente com os judeus por um período de Mil anos e só depois disso tudo, partir para o estado eterno.

Você pode estar me perguntando: é sério que eles creem nisso? Sim. Eles conseguem crer assim. 

b) Você acredita na doutrina da depravação total? (...) “que todos se extraviaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23) sendo impossível ao homem responder positivamente a Deus, sem que Ele antes opere sobrenaturalmente em cada ser? Se sim, como você conceberia a ideia de Deus passar a história toda testando a obediência do homem? Ora, não seria um contrassenso Deus continuar testado o homem, cujo seu estado natural passa a ser de rebelião contra ele? O homem foi reprovado! Deus não esperava mais nada da humanidade para providenciar a redenção de sua Criação. Em Gn 3.15 Deus faz uma promessa de restauração, sustenta-a e concretiza na Cruz. Esqueçam os testes! Deus conheceu nosso fracasso como humanidade, tanto é que imolou seu filho no madeiro, antes da fundação do mundo (Ap 13.8).

c) Dispensacionalistas crêem que Deus tem dois povos, e não só UM POVO. Veja só, enquanto os dispensacionalistas ainda fazem divisão entre judeus e gentios no que diz respeito aos planos e decretos de Deus, o apóstolo Paulo declara de forma clara “que o muro de divisão que anteriormente dividia judeus e gentios foi removido permanentemente por Cristo” (Ef 2.14-15).No Antigo Testamento Deus já expressara que Seu desejo era que a nação de Israel fosse luzeiro para todas as nações da terra (Gn 12.3) a fim de alcançar todos os povos.
“Anunciai entre as nações a sua Glória e entre todos os povos as suas maravilhas” (Sl 96.3).
E mais, em outras passagens o apóstolo Paulo reafirma que o verdadeiro Israel de Deus salvo não são os de linhagem étnica-racial israelita, mas os que pela fé estão em Cristo.
"Pois nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura. E, a todos quantos andarem de conformidade com esta regra, paz e misericórdia sejam sobre eles e sobre o Israel de Deus". (Gl 6.15-16)
Em outras palavras, o verdadeiro judeu não é aquele que fez a circuncisão da carne, e sim aquele que fez a circuncisão do coração (Rm 2.28-29)

d) Os dispensacionalistas acreditam que haverá um futuro reino milenar. Milênio para os dispensacionalistas seria um período literal de mil anos expressos em Apocalipse 20 e que será inaugurado com o arrebatamento parcial da igreja – parcial, pois os dispensacionalistas acreditam que Cristo vem por etapas - e a prisão de satanás que precederão um longo período de paz, prosperidade e evangelização mundial.

Vejamos os grandes problemas desta interpretação de Apocalipse 20.
* Não faz sentido interpretar os mil anos de Apocalipse 20 como anos literais! Isto porque o livro de Apocalipse não é um livro descritivo, mas em sua grande maioria simbólico. Números são utilizados na Bíblia como significados de perfeição (nº 7), imperfeição (nº6), totalidade (nº 10). Se Mil anos forem literais, então a chave, corrente, o dragão e tudo no texto também deixariam de ser figuras simbólicas e passariam a ser literais.

* “Mil anos” é uma expressão simbólica que demarca um tempo total e incerto entre a primeira vinda de Cristo e o Seu retorno para implantação do reino eterno.

* Satanás não será preso como esperam os dispenscionalistas. Ele já está preso! Como comprovamos isso? A vinda de Cristo ao mundo nos colocou entre uma tensão conhecida pelos teólogos de “já e ainda não”, isto é, Cristo implanta o seu Reino já, mas ainda não, plenamente. Portanto, com a descida do Filho ao mundo satanás foi preso. Mas, o que seria estar preso? Será que o diabo está literalmente acorrentado ou encarcerado em algum cubículo? Claro que não! Prisão de satanás significa dizer que o seu poder foi restringido e a sua atuação não está “mais tão livre” como antes, uma vez que agora a igreja recebera poder contra toda ação maligna.
“Também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" [Mateus 16.18]

Mas, onde podemos diagnosticar que satanás realmente foi preso com a vinda de Cristo? Veja:

“Ninguém pode entrar na casa do valente para roubar-lhe os bens, sem primeiro amarrá-lo; e só então lhe saqueará a casa” [Marcos 3.27] Nesta parábola fica claro que Jesus está se referindo a satanás no que diz respeito ao valente. O valente foi amarrado!! Aqui, mais do que nunca nós concluímos que não faz sentido algum aquele jargão, muito usado pelos pentecostais, “tá amarrado”. Ora, dizer isso ante uma situação adversa no intuito de amarra satanás é vão. Cristo amarrou-o. Limitou-o.

Outro verso que bíblico que corrobora para esta certeza encontra-se em Colossenses 2.15:“ E, despojando os principados e potestades, os expôs publicamente e deles triunfou em si mesmo”.

A palavra despojar significa desarmar. Imagine um guerreiro que se arma com espada e escudo e avança para matar seu oponente. Agora pense no adversário que arranca a espada e o escudo deste guerreiro. Assim Cristo fez com satanás na Cruz! Ele humilhou-o e reduziu todo o seu “poder de ataque”. Ora, isto não significa que antes Deus não tivesse tamanho domínio, mas significa dizer que agora, através do evento da vinda de Cristo e a sua crucificação Satanás este domínio se dá plenamente ao passo que Deus concede autoridade ao seu povo e expande o seu Reino.

e) O dispensacionalismo crê que quando se iniciar o período de Grande Tribulação, o qual sucede a primeira vinda de Cristo, mesmo sem a pregação do Evangelho na terra e sem a presença intencional do Espírito Santo, alguns crentes nominais que ficaram ainda poderão ser salvos ao não negarem o nome de Jesus e resistirem a marca da besta, por méritos próprios e baseados, talvez, em uma espécie de um senso teológico de “essa é minha última chance”.

Ora, este talvez seja um dos pontos mais difíceis de serem harmonizados com a soteriologia bíblica. Afinal, como ser salvo pela Graça, mediante a fé, sem receber diretamente de Deus este dom?

E aí. Dispensa ou não?

***

[1] Dispensacionalismo é uma abordagem teológica da Bíblia que divide a história sacra em várias eras específicas ou dispensações, sendo que em cada uma delas Deus lida com as pessoas de um modo diferente. A última dessas dispensações, dizem eles, será o Reino de mil anos de Cristo sobre a terra durante o milênio. Pré-tribulacionismo é a posição que diz que a Igreja será arrebatada e levada para o céu antes da grande tribulação que precede o milênio. [Anthony Hoekeman]

Texto produzido a partir dos comentários escatológicos de Anthony Hoekeman, Wayne Gruden, William Hendriksen, Hernandes Dias Lopes 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Pecadores, sim. Mas sem presunção...por favor.

Não há como minimizar os efeitos da queda. Caímos. Pecamos. Rebelamo-nos. Mentimos. Criamos nossos próprios deuses. Amamos o nosso próprio ventre.

Estávamos “em pecado” (separados, distantes, rebelados).

Graça e misericórdia vieram até nós por meio de Cristo Jesus. Por isso, se antes estávamos “em pecado”, hoje temos o nosso ser pacificado pela Cruz.

Somos amados, ganhamos um Pai e vivemos uma fé que atua pelo amor. Não estamos mais na condição “de pecado”, mas contudo, infelizmente, ainda pecamos.

Seria isso um pretexto para se viver uma graça barata? Não! Óbvio que não. Mas, lembrar que ainda hoje e amanhã pecaremos (muito embora não estando “em pecado”, insisto!) deve trazer algumas implicações práticas e existenciais para cada um de nós.

Precisamos de uma vez por todas jogar luz no espelho e perceber quem “ainda somos”. Eu sou pecador, você não é?

Decerto seria uma pronta resposta afirmar o contrário: que somos a imagem e semelhança de Deus, que agora somos novas criaturas que vivem de modo digno da vocação pela qual fomos chamados. Ops! Mas sim - em Cristo - sem dúvidas, somos novo ser em busca do ideal de Deus!

A relação entre pecado e santidade parece-nos sempre dilemática, não é? Leva-nos para um dualismo antigo. Mas, chega! ... sem dilemas! Na verdade não há dilemas! A questão é que efetivamente somos isso ainda, em parte; e em Cristo somos aquilo, "já e ainda não".

Ora, sejamos sinceros quanto à estreiteza do conceito de pecado presente em nossa religiosidade moderna, o qual não vai além dos limites da moral e do sexo, por exemplo - procure alguém que foi disciplinado  na igreja por ser um crente avarento, certamente não acharás. Sejamos também verdadeiros quanto a nossa mesquinha compreensão da maravilhosa graça de Deus (mergulhar nas escrituras revelaria muito sobre o nosso terrível caráter e muito mais sobre a beleza da pessoa de Deus, não é verdade?)

Voltando a questão do pecado, note que a Bíblia não ensina que é possível viver sem pecar (I João 1.7-10). A queda detonou nossos pilares da moral a serviço da espiritualidade! Quando começamos a construí-la, logo ela é implodida sem precisar de muitas toneladas de bombas – basta um simples artefato bélico pra destruir nossa “boa obra” para Deus. Eis o motivo de bradarmos “tudo é graça”, pois merecíamos desde antes a morte!

Entretanto, o que a Bíblia nos orienta é que é possível viver sem que haja o “enraizamento” da prática do pecado e o deliberado prazer nele. (Cl 3.5; 1Jo 3.9).

Estou desejando que permaneça distante de nós qualquer orgulho ou altivez de tentarmos falsificar os efeitos da queda através de nosso comportamento super-facial. Sim, isto porque aprendemos erroneamente que "cristãos espirituais" carregam um pacote de "virtudes aparentes" que testificam que os mesmos pouco pecam, ou quase nunca cometem pecados.

É triste vê-los acreditando neste devaneio.

Por isso, eu queria relembrar alguns tipos de pecados que eu e você cometemos sempre e sempre e sempre... Isto não significa - saliento  - que a libertinagem deve roubar a nossa busca por santidade, ou nos esponjar da culpa que subtrai a alegria de viver; mas que é razoável relembrar que a presença de tais pecados pode significar a possibilidade de enganarmos os homens todos os dias, assim como, pode nos possibilitar galgar posições "importantes" nos nossos arraiais evangélicos. Enfim, é bom não duvidarmos da nossa medíocre tentativa de surpreender nossos pares, e quiçá, até Deus. Tentar maquiar os efeitos da queda é negligenciar a riqueza e beleza da graça de Deus.

Observe. Não por coincidência, muitas pessoas saem das igrejas decepcionadas com crentes que se apresentaram como “anjos de luz” fantasiando-se na garantia de suas condutas, deslizaram e deixaram a máscara cair. Neste caso, estes esqueceram de que são novas criaturas [em Cristo], mas que ainda são pecadores [na carne] - faltaram autoexames e sobraram presunções.

Mas, vamos refletir por que somos tão pecadores, apesar de...?
a) Você faz o bem sempre? Quantas oportunidades você tem de fazer o bem e não faz? (Tg 4.17).

b) A Bíblia diz que motivações que brotam de dentro do coração e contaminam o homem são maus desígnios. Você, vez por outra, não se depara com pensamentos impuros na sua mente? (inveja, ciúme, orgulho) (Mt 15.18)

c) Você nunca sentiu ódio por alguém e depois parou e disse “não devo desejar isso a essa pessoa”? (Mt. 5.21-26).

d) Você nunca olhou de forma impura uma mulher ou um homem? (Mt. 5.27-28)

e) Você não mente nenhuma vez no dia? Nem para você mesmo?

f) Você nunca teve momentos de avareza? (pra não perguntar se você não é, de fato, um avarento).

g) Você já encontrou em sua “mentezinha” suja pela queda, a lascívia, ou seja o apetite sexual pelo(a) próximo(a)? (Mt 7.21)

h) Você já pecou também por comissão, ou seja por fazer parte da própria engrenagem da injustiça no mundo, de alguma forma, seguindo o curso dele? (Rm 12.2)

i) Você em algum momento fez ou faz acepção de pessoas? (Tg. 2.1-13).

j) E os pecados da língua? Esse nem se fala né? (Tg.3.1-12; 4.1-12)

l) Já parou e disse para si mesmo em tom de orgulho “como eu tenho uma moral ilibada diante da sociedade”? Sentiu aquele orgulho altivo?

m) Você nunca fabricou em oculto nenhum deus para você? (dinheiro, família, status, poder, sentimentos, etc.)? (Ex. 20.3)

n) O apóstolo Paulo clamou “desventurado homem que sou!” (Rm 7.24), e você admite isso com frequência a Deus? Demonstra essa realidade aos que convivem com você, ou só se acha uma “raridade”?

o) Você acha que precisa de conselhos para não pecar tanto? Vejamos o que está escrito lá em Colossenses 3.5-9: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição (pecado sexual), impureza (pecado sexual), paixão lascívia (pecado sexual-mental), desejo maligno (pecado motivacional), e a avareza, que é idolatria (atitude econômico-financeira; pecado social).” Ou seja, Paulo conclama uma guerra aos pecados reais, presentes em maior ou menor grau, na vida de qualquer cristão. 
Então...eu poderia explorar todas as palavras e letras do alfabeto e teríamos dezenas de centenas de pecados possíveis para cada um de nós. Por isso concluímos que não há motivos para que vivamos com a presunção de sermos “santos”, “capazes” e superiores a ninguém, não é verdade?

Não há possibilidade alguma de impressionarmos com Deus com nossa conduta! A coisa não funciona de baixo para cima.

Não tentemos ser nada além do que Deus sabe que nós somos. Do contrário, vivamos a nossa realidade existencial no compasso da graça e pelo sacrifício da Cruz. Sendo assim, nunca deixemos que os nossos pares nos olhem de baixo para cima; caso isso aconteça, prontamente nos apresentemos a eles sem a maquiagem da religião, despojados de “boas obras”, apenas vestidos de Cristo. Isto valerá tanto para eles, quanto para nós. 

Por fim, talvez você me julgue achando que irei sugerir que se solte a linha para a “pipa da pseudo-liberdade” voar livre. Não, não era disso que estava falando desde o início. Por isso espero que você não tenha lido este texto pelo avesso. Oro por isso.

Os que leram, entretanto, apenas desejando soltar linha da pipa, ao que parece ficaram apenas na sombra da Cruz vendo-a de longe. Estes certamente se entregarão aos traiçoeiros deleites do pecado e sentirão o sabor do absinto infernal ainda em vida. Os que foram atraídos pela Cruz, experimentarão a contra intuição do “miserável homem que sou” que “vive em abundância em Jesus”. Isto é, os que tem ciência da salvação em Cristo pela fé, mesmo ainda pecando, viverão o contraste de se perderem na graça pela busca da ambiciosa excelência de ser igual ao seu mestre.

Portanto, não é a toa que,

Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou. (1 Jo 1.6).


Mas sem presunção, por favor.

(...) pois andar com ele andou também é graça.

***

Misael Antognoni.