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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Pecadores, sim. Mas sem presunção...por favor.

Não há como minimizar os efeitos da queda. Caímos. Pecamos. Rebelamo-nos. Mentimos. Criamos nossos próprios deuses. Amamos o nosso próprio ventre.

Estávamos “em pecado” (separados, distantes, rebelados).

Graça e misericórdia vieram até nós por meio de Cristo Jesus. Por isso, se antes estávamos “em pecado”, hoje temos o nosso ser pacificado pela Cruz.

Somos amados, ganhamos um Pai e vivemos uma fé que atua pelo amor. Não estamos mais na condição “de pecado”, mas contudo, infelizmente, ainda pecamos.

Seria isso um pretexto para se viver uma graça barata? Não! Óbvio que não. Mas, lembrar que ainda hoje e amanhã pecaremos (muito embora não estando “em pecado”, insisto!) deve trazer algumas implicações práticas e existenciais para cada um de nós.

Precisamos de uma vez por todas jogar luz no espelho e perceber quem “ainda somos”. Eu sou pecador, você não é?

Decerto seria uma pronta resposta afirmar o contrário: que somos a imagem e semelhança de Deus, que agora somos novas criaturas que vivem de modo digno da vocação pela qual fomos chamados. Ops! Mas sim - em Cristo - sem dúvidas, somos novo ser em busca do ideal de Deus!

A relação entre pecado e santidade parece-nos sempre dilemática, não é? Leva-nos para um dualismo antigo. Mas, chega! ... sem dilemas! Na verdade não há dilemas! A questão é que efetivamente somos isso ainda, em parte; e em Cristo somos aquilo, "já e ainda não".

Ora, sejamos sinceros quanto à estreiteza do conceito de pecado presente em nossa religiosidade moderna, o qual não vai além dos limites da moral e do sexo, por exemplo - procure alguém que foi disciplinado  na igreja por ser um crente avarento, certamente não acharás. Sejamos também verdadeiros quanto a nossa mesquinha compreensão da maravilhosa graça de Deus (mergulhar nas escrituras revelaria muito sobre o nosso terrível caráter e muito mais sobre a beleza da pessoa de Deus, não é verdade?)

Voltando a questão do pecado, note que a Bíblia não ensina que é possível viver sem pecar (I João 1.7-10). A queda detonou nossos pilares da moral a serviço da espiritualidade! Quando começamos a construí-la, logo ela é implodida sem precisar de muitas toneladas de bombas – basta um simples artefato bélico pra destruir nossa “boa obra” para Deus. Eis o motivo de bradarmos “tudo é graça”, pois merecíamos desde antes a morte!

Entretanto, o que a Bíblia nos orienta é que é possível viver sem que haja o “enraizamento” da prática do pecado e o deliberado prazer nele. (Cl 3.5; 1Jo 3.9).

Estou desejando que permaneça distante de nós qualquer orgulho ou altivez de tentarmos falsificar os efeitos da queda através de nosso comportamento super-facial. Sim, isto porque aprendemos erroneamente que "cristãos espirituais" carregam um pacote de "virtudes aparentes" que testificam que os mesmos pouco pecam, ou quase nunca cometem pecados.

É triste vê-los acreditando neste devaneio.

Por isso, eu queria relembrar alguns tipos de pecados que eu e você cometemos sempre e sempre e sempre... Isto não significa - saliento  - que a libertinagem deve roubar a nossa busca por santidade, ou nos esponjar da culpa que subtrai a alegria de viver; mas que é razoável relembrar que a presença de tais pecados pode significar a possibilidade de enganarmos os homens todos os dias, assim como, pode nos possibilitar galgar posições "importantes" nos nossos arraiais evangélicos. Enfim, é bom não duvidarmos da nossa medíocre tentativa de surpreender nossos pares, e quiçá, até Deus. Tentar maquiar os efeitos da queda é negligenciar a riqueza e beleza da graça de Deus.

Observe. Não por coincidência, muitas pessoas saem das igrejas decepcionadas com crentes que se apresentaram como “anjos de luz” fantasiando-se na garantia de suas condutas, deslizaram e deixaram a máscara cair. Neste caso, estes esqueceram de que são novas criaturas [em Cristo], mas que ainda são pecadores [na carne] - faltaram autoexames e sobraram presunções.

Mas, vamos refletir por que somos tão pecadores, apesar de...?
a) Você faz o bem sempre? Quantas oportunidades você tem de fazer o bem e não faz? (Tg 4.17).

b) A Bíblia diz que motivações que brotam de dentro do coração e contaminam o homem são maus desígnios. Você, vez por outra, não se depara com pensamentos impuros na sua mente? (inveja, ciúme, orgulho) (Mt 15.18)

c) Você nunca sentiu ódio por alguém e depois parou e disse “não devo desejar isso a essa pessoa”? (Mt. 5.21-26).

d) Você nunca olhou de forma impura uma mulher ou um homem? (Mt. 5.27-28)

e) Você não mente nenhuma vez no dia? Nem para você mesmo?

f) Você nunca teve momentos de avareza? (pra não perguntar se você não é, de fato, um avarento).

g) Você já encontrou em sua “mentezinha” suja pela queda, a lascívia, ou seja o apetite sexual pelo(a) próximo(a)? (Mt 7.21)

h) Você já pecou também por comissão, ou seja por fazer parte da própria engrenagem da injustiça no mundo, de alguma forma, seguindo o curso dele? (Rm 12.2)

i) Você em algum momento fez ou faz acepção de pessoas? (Tg. 2.1-13).

j) E os pecados da língua? Esse nem se fala né? (Tg.3.1-12; 4.1-12)

l) Já parou e disse para si mesmo em tom de orgulho “como eu tenho uma moral ilibada diante da sociedade”? Sentiu aquele orgulho altivo?

m) Você nunca fabricou em oculto nenhum deus para você? (dinheiro, família, status, poder, sentimentos, etc.)? (Ex. 20.3)

n) O apóstolo Paulo clamou “desventurado homem que sou!” (Rm 7.24), e você admite isso com frequência a Deus? Demonstra essa realidade aos que convivem com você, ou só se acha uma “raridade”?

o) Você acha que precisa de conselhos para não pecar tanto? Vejamos o que está escrito lá em Colossenses 3.5-9: “Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição (pecado sexual), impureza (pecado sexual), paixão lascívia (pecado sexual-mental), desejo maligno (pecado motivacional), e a avareza, que é idolatria (atitude econômico-financeira; pecado social).” Ou seja, Paulo conclama uma guerra aos pecados reais, presentes em maior ou menor grau, na vida de qualquer cristão. 
Então...eu poderia explorar todas as palavras e letras do alfabeto e teríamos dezenas de centenas de pecados possíveis para cada um de nós. Por isso concluímos que não há motivos para que vivamos com a presunção de sermos “santos”, “capazes” e superiores a ninguém, não é verdade?

Não há possibilidade alguma de impressionarmos com Deus com nossa conduta! A coisa não funciona de baixo para cima.

Não tentemos ser nada além do que Deus sabe que nós somos. Do contrário, vivamos a nossa realidade existencial no compasso da graça e pelo sacrifício da Cruz. Sendo assim, nunca deixemos que os nossos pares nos olhem de baixo para cima; caso isso aconteça, prontamente nos apresentemos a eles sem a maquiagem da religião, despojados de “boas obras”, apenas vestidos de Cristo. Isto valerá tanto para eles, quanto para nós. 

Por fim, talvez você me julgue achando que irei sugerir que se solte a linha para a “pipa da pseudo-liberdade” voar livre. Não, não era disso que estava falando desde o início. Por isso espero que você não tenha lido este texto pelo avesso. Oro por isso.

Os que leram, entretanto, apenas desejando soltar linha da pipa, ao que parece ficaram apenas na sombra da Cruz vendo-a de longe. Estes certamente se entregarão aos traiçoeiros deleites do pecado e sentirão o sabor do absinto infernal ainda em vida. Os que foram atraídos pela Cruz, experimentarão a contra intuição do “miserável homem que sou” que “vive em abundância em Jesus”. Isto é, os que tem ciência da salvação em Cristo pela fé, mesmo ainda pecando, viverão o contraste de se perderem na graça pela busca da ambiciosa excelência de ser igual ao seu mestre.

Portanto, não é a toa que,

Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou. (1 Jo 1.6).


Mas sem presunção, por favor.

(...) pois andar com ele andou também é graça.

***

Misael Antognoni.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O SANTO E O MORALISTA

Há uma diferença muito grande entre preocupar-se com a lei e ser legalista. As escrituras aprovam -a preocupação movida pelo amor- com o cumprimento da vontade moral de Deus; e, ao mesmo tempo, condenam a obsessão neurótica com a lei, movida pelo medo. Qual a diferença entre ser santo e ser legalista?

1. O santo se relaciona com Deus em amor. O moralista procura cumprir a lei em temor servil.

2. O santo vive em liberdade sob o espírito da lei, e não no claustro do detalhismo ético. Ele vê a moral cristã à luz do conjunto mais amplo de preceitos morais e do seu escopo principal: a glória de Deus e a felicidade humana; em vez de vê-la sob as trevas da meticulosidade ética, capaz de conduzi-lo à negligência do propósito essencial da lei.

3. O santo submete sua vida ao que as Escrituras revelam. O legalista procura impressionar a Deus com tolices criadas pelo homem. Para o santo, boa obra é apenas aquela que é praticada em amor e sujeição a preceito ético claramente revelado.

4. O santo sabe que entrará no reino dos céus pelo sacrifício de um outro que foi espancado e morto em seu lugar. O moralista não consegue entender uma relação com Deus que não seja baseada em desempenho.

5. O santo cai e se levanta, confiando mais na misericórdia de Deus do que na sua inocência. O moralista só se perdoa depois de haver expiado pessoalmente a sua culpa.

6. O santo se relaciona com Deus através de Cristo. O moralista se relaciona com Deus através da lei.

7. O santo ficou viúvo da lei e casou com Cristo. O moralista mantém o matrimônio com a senhora lei.

8. O santo é cara de pau. Participa da festa do amor do Pai como se nada tivesse acontecido. O moralista recusa-se ir para o salão de festa sem antes passar pela senzala.

9. O santo usa as Escrituras para revelar o amor gracioso de Deus pelos pecadores. O moralista usa a Bíblia para justificar a sessão de apedrejamento do que pecou.

10. O santo surpreende-se com a doçura da graça de Deus. O moralista espanta-se com a estreiteza do caminho que leva ao céu.

11. O santo é bom e justo. O moralista costuma ser apenas justo. Em suma, o santo é justo, o legalista é justiceiro.

12. As crianças adoram a companhia do santo. O moralista as espanta.

13. O santo não se sente livre para ser mau porque Deus é bom. O moralista tende a ser tão mau quanto o seu Deus.

14. O santo tem sempre alguém na vida com quem pode falar sobre suas fragilidades morais. O moralista procura ocultá-las até de si mesmo.

15. O santo encontrou na vida um Deus amável a quem cultua em amor. O moralista encontrou na vida um justiceiro celestial a quem cultua de olhos secos.

16. O santo é progressista. O moralista é conservador. O santo conserva o que ainda é útil, santo e bom. O moralista conserva o que é relativo, temporal e anacrônico.

17. O santo celebra a vida. O moralista só se sente bem quando está mal.

18. O santo não busca uma santificação que o desnaturalize. O moralista tenta viver como anjo.

19. O santo surpreende-se com a condescendência divina face à sua fraqueza moral. O moralista não entende como não é mais abençoado face ao seu desempenho ético.

20. O santo se relaciona com Deus através de Cristo. O moralista se relaciona apenas com Deus. Por isso, o santo encontra o Pai, o moralista, o Diabo.

Por: Antônio Carlos Costa.

***

Antonio Carolos Costa é pastor presbiteriano, escritor e presidente da ONG Rio de Paz.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Borrifou com água, limpou a poeira e nos Amou

A Graça de Deus é próxima e pessoal. Foi por ela que Cristo nos alcançou. Esta incomensurável condição do Pai nos amar a ponto de abandonar a Sua glória e morrer em nosso lugar ainda é um dos mais absurdos atos que o ser humano pode contemplar em sua existência. Por isso o Evangelho é loucura para os homens. Nos debrucemos na certeza de que o Amor do Divino é antigo e imedível.

Pensando nesta Graça, trago uma passagem belíssima da obra do funileiro de Bedford, na Inglaterra, que há mais de 300 anos foi inquietado por Deus para escrever a célebre obra "O Peregrino", falo de John Bunyan.

O livro traz um personagem central que é “CRISTÃO”, um homem que vive uma peregrinação da terra para o céu, do pecado para a salvação, e está sujeito a lutas e armadilhas. Nesta trama, CRISTÃO se depara com inimigos (Legalidade, Hipocrisia), e também com amigos, dentre eles, a segunda pessoa do diálogo que iremos notar, o “INTÉRPRETE”, que o incentiva no progresso de sua caminhada.

Veja que magnífico diálogo abaixo e contemple um dos mais belos exemplos de amor, perdão e Graça:

"Então Intérprete o tomou pela mão e o levou para uma sala bem grande, cheia de poeira, pois jamais era varrida.

Depois de examiná-la, Intérprete mandou um homem varrê-la. Ora, começando ele a varrer, o pó a ergueu tão abundantemente que o Cristão quase sufocou. Disse então Intérprete a uma jovem que estava ali ao lado:
- Traga água e borrife um pouco na sala. Feito isso, a sala pôde ser varrida e limpa com prazer.

CRISTÃO: O que significa isso?


INTÉRPRETE: Esta sala é o coração do homem que jamais foi santificado pela doce graça do Evangelho. A poeira é seu pecado original e as corrupções mais íntimas que macularam todo o homem. Aquele que começou a varrer primeiro é a Lei, mas o que trouxe a água e a borrifou, é o Evangelho. Ora, você mesmo viu que assim que o homem começou a varrer, a poeira levantou, tornando impossível limpar a sala. Você quase sufocou. Isso foi para mostrar-lhe que a lei, em vez de limpar (pela sua ação) o coração do pecado, na verdade o faz reviver, o fortalece e o amplia na alma, ainda que o revele e proíba, pois não dá força para subjugar.

Depois – continuou ele – você viu a jovem borrifar a sala com água, podendo então limpá-la com prazer. Isso é para mostrar-lhe que, quando o Evangelho entra no coração com sua influência doce e inestimável, o pecado é conquistado e subjugado, da mesma forma como você viu a jovem fazer pousar a poeira borrifando o chão com água. A alma se faz limpa pela fé, preparando-se consequentemente para que o Rei da Glória e habite."
[O Peregrino, p.35-36]

Que nunca se esqueçamos dAquele que com a água borrifou a sala de nossa alma, nos limpou de toda sujeira do pecado e nos ensinou a Sua Maravilhosa Graça.

Sem a intervenção dEle em nossas vidas a sujeira de nossa alma nos faria perecer.

Somo gratos, Aba.

***

Misael Antognoni, 
Editor do Candiêro Teológico.